quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Sem pedir licença, as tropas a serviço da Companhia das Índias Ocidentais desembarcaram no início do século XVII na cobiçada região açucareira do Nordeste.
Começavam os tempos do Brasil Holandês, proporcionando anos de sucesso e lucro para a empresa criada pelos neerlandeses para abocanhar riquezas dos impérios coloniais no Atlântico
Mas o que parecia doce logo mostra um gosto amargo. O declínio dos dias de glória da ocupação começa a ser desenhado quando o projeto entra em crise financeira e política. E as coisas pioram quando a fagulha da insurreição se espalha pelo solo paraibano.
No verbete escrito por Leandro Vilar Oliveira, doutor em Ciências das Religiões pela UFPB, descubra como indígenas, escravizados e luso-brasileiros uniram-se para expulsar os holandeses das terras nordestinas.
Os portugueses classificavam os povos indígenas entre “aliados” e “inimigos”, utilizando termos generalizantes como tupi e tapuia.
Entre os chamados tapuias estavam os Aimorés, primeira denominação específica dos povos que posteriormente ficaram conhecidos como Botocudos.
“Botocudo” também é uma denominação externa, relacionada ao uso de botoques labiais e auriculares.
No rio Doce, os Aimorés foram considerados pelos padres jesuítas “os mais ferozes de todos os tapuias”. A imagem de “ferozes”, “antropófagos” e “inimigos da colonização” acompanhou esses povos desde os primeiros contatos e ajudou a justificar as ofensivas coloniais.
O olhar europeu também marcou suas descrições físicas. O príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, inicialmente, descreveu os Botocudos como “estranhos e feios”, aproximando sua aparência à de “monstros”. Posteriormente, porém, o próprio viajante mudou sua percepção, afirmando que eram “mais bem conformados e mais belos do que os das demais tribos”, destacando seus corpos fortes e bem proporcionados.
Essa mudança revela como essas descrições estavam atravessadas pelas concepções europeias de beleza.
Os Botocudos eram formados por diversos subgrupos, muitas vezes rivais entre si. Cada grupo possuía um chefe, escolhido pela bravura demonstrada, e não por hereditariedade. Cabiam a ele orientações e decisões sobre disputas internas, migrações do grupo e momentos de guerra.
Eram grupos seminômades, mas seus espaços nas florestas eram limitados em relação aos territórios de outros subgrupos, principalmente no que dizia respeito às áreas de caça. Apesar das divisões e rivalidades, compartilhavam sistemas sociocosmológicos e linguísticos.
Também produziam diversos instrumentos e utensílios para diferentes finalidades: caça, guerra, música, adorno corporal e, principalmente, uso doméstico. A simplicidade de sua fabricação estava relacionada às constantes movimentações e viagens dos grupos.
Essa mobilidade, porém, foi muitas vezes utilizada pelos colonizadores para classificá-los como “primitivos” e justificar a imposição de um modelo europeu de "civilização".
Um Missionário Franciscano entre os índios Xumanas do Rio Solimões no Amazonas, 1885
A Região Amazônica do Século XIX foi marcada pela chegada das missões Religiosas dos frades capuchinhos ( 1843 ), dos franciscanos que retornam em 1870 , dos espiritanos ( 1885 ) e dos Salesianos em 1889, encorajados belo Bispo do Pará D. Antonio de Macedo Costa.
Em 1883 com o apoio do Barão de Santana Néri, o Bispo do Pará elaborou um projeto de catequese indígena desenvolvido pelo movimento de restauração católica da Amazônia. Os fins de suas missões consistiam na catequese e na civilização do homem amazônico, e na pacificação de "índios selvagens", conforme relato do diretor do Jardim Botânico do Amazonas, José Barbosa Rodrigues.
O Bispo procurava expandir a presença da Igreja no campo da instrução, defendendo uma política educacional para a Amazônia que elevasse o nível de sua instrução pública, de forma que a região se encaminhasse para o verdadeiro progresso, que, para ele, significava a elevação do país pela formação intelectual e religiosa.
Para desenvolver a Amazônia, ele apostava em um programa educacional que mesclasse instrução escolar e educação moral, ensino da religião católica e ensino técnico-científico. Esse programa católico, como bem mostra ), estava fundamentado em uma teoria de educação conservadora, denominada por ‘teoria dos círculos concêntricos’, Tal educação começaria com a educação da menina, que deveria se tornar “[...] mãe cristã de filhos cristãos; de filhos cristãos para famílias cristãs; das famílias cristãs para sociedade cristã [...]”,
Em 1924, nas ruas movimentadas de Lucknow, no norte da Índia, um vendedor de frutas posa ao lado de seu carrinho cuidadosamente organizado.
Em 1924, nas ruas movimentadas de Lucknow, no norte da Índia, um vendedor de frutas posa ao lado de seu carrinho cuidadosamente organizado. A fotografia, aparentemente simples, registra muito mais do que um trabalhador em meio à rotina: revela um pouco da vida cotidiana de uma cidade que, há séculos, era conhecida por sua cultura, arquitetura e tradição comercial.
Naquela época, grande parte do comércio de alimentos acontecia ao ar livre. Vendedores percorriam ruas e mercados oferecendo frutas e outros produtos trazidos das áreas rurais próximas. Sem a refrigeração disponível atualmente, alimentos frescos precisavam ser comercializados e consumidos rapidamente, fazendo dos vendedores ambulantes uma presença importante no abastecimento das famílias.
O carrinho também representa uma atividade comercial tradicional nas cidades indianas. Com poucos recursos, comerciantes independentes conseguiam estabelecer relações duradouras com seus clientes e transformar o comércio cotidiano em seu meio de sobrevivência.
Lucknow vivia, naquele período, um processo gradual de modernização, mas suas ruas ainda preservavam costumes e formas de comércio que haviam atravessado gerações. Ao lado das novas tecnologias e das mudanças urbanas, permaneciam os mercados, os vendedores e o contato direto entre quem produzia, vendia e consumia.
É justamente essa simplicidade que torna a imagem tão valiosa. Não vemos reis, generais ou grandes acontecimentos históricos. Vemos um homem trabalhando.
E é através de pessoas como ele que uma cidade funciona.
Quase um século depois, fotografias assim nos lembram que a história também está nas pequenas cenas: no comércio de rua, no trabalho diário e nas pessoas comuns que ajudaram a construir a vida das grandes cidades indianas.
O molho de tomate não existia na Itália até pelo menos o século XVI. E a razão é simples: o tomate não é europeu. Ele é originário das Américas.
O molho de tomate não existia na Itália até pelo menos o século XVI. E a razão é simples: o tomate não é europeu. Ele é originário das Américas.
O tomate foi domesticado por povos indígenas muito antes da chegada dos europeus. Após as viagens de Cristóvão Colombo, plantas, animais e alimentos começaram a atravessar o Atlântico, no processo que ficou conhecido como Intercâmbio Colombiano.
O tomate chegou à Europa provavelmente nas décadas de 1520 e 1540, levado pelos espanhóis. Mas sua aceitação foi lenta. Na Itália, uma das primeiras referências aparece em 1548, quando o botânico Pietro Andrea Mattioli descreveu uma planta que provavelmente correspondia ao tomate.
Durante muito tempo, ele foi cultivado mais como planta ornamental do que como alimento. Havia também desconfiança em relação ao seu consumo, pois o tomate pertence à família das solanáceas, que inclui espécies tóxicas.
A transformação aconteceu aos poucos. No século XVII, começaram a surgir receitas italianas utilizando tomates, mas foi no final do século XVII que aparecem alguns dos primeiros registros claros de molhos feitos com eles. Entre eles estão receitas publicadas por Antonio Latini em seu livro Lo Scalco alla Moderna, entre 1692 e 1694.
Foi principalmente nos séculos XVIII e XIX que o tomate se tornou um ingrediente fundamental da cozinha italiana.
A ironia histórica é que um dos maiores símbolos da gastronomia da Itália nasceu do outro lado do Atlântico.
Pizza, molho de tomate, passata e tantos outros pratos que hoje parecem eternamente italianos são, na verdade, resultado de uma transformação culinária relativamente recente.
O tomate não é italiano. Mas a Itália descobriu algumas das maneiras mais deliciosas de transformá-lo em história.
Tenente Zé Rufino: o implacável perseguidor do cangaço que recusou o convite de Lampião
O tenente José Rufino de Melo, conhecido na história nordestina como Zé Rufino, nasceu no fim do século XIX em Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, região marcada por conflitos, seca e pela presença constante do cangaço. Forjado nesse ambiente duro, ele se tornaria um dos mais temidos e respeitados oficiais das forças volantes que combateram Lampião e seus seguidores durante as décadas de 1920 e 1930.
Zé Rufino construiu sua fama pela eficiência e pela rigidez com que conduzia as perseguições aos bandos cangaceiros. Diferente de muitos combatentes da época, que alternavam alianças conforme a conveniência, ele ficou conhecido por manter uma postura inflexível contra o cangaço. Liderando volantes em Pernambuco, Bahia e Alagoas, participou de inúmeras emboscadas, cercos e confrontos armados, sendo responsável direto pela morte de vários cangaceiros e pela desarticulação de grupos inteiros que atuavam no sertão.
Sua atuação era marcada por profundo conhecimento da caatinga, disciplina militar e uso constante da inteligência local, fatores que o tornaram um adversário especialmente perigoso para Lampião. Não por acaso, seu nome passou a circular entre os cangaceiros como sinônimo de ameaça real, alguém que não recuava e não aceitava acordos fáceis.
Curiosamente, apesar de ser um dos seus maiores inimigos, Zé Rufino teria sido convidado pelo próprio Lampião para integrar o cangaço. O convite, segundo relatos históricos, partiu do reconhecimento da coragem, da habilidade em combate e da liderança do tenente. A resposta foi imediata e definitiva: Zé Rufino recusou qualquer possibilidade de aliança, reafirmando seu compromisso com a repressão ao banditismo que assolava o sertão.
Após o fim do cangaço, com a morte de Lampião em 1938 e a gradual extinção dos bandos armados, Zé Rufino seguiu carreira militar até se afastar da vida ativa. Viveu seus últimos anos longe dos combates que o tornaram famoso e morreu em Jeremoabo, no estado da Bahia, encerrando a trajetória de um homem que se tornou símbolo do combate armado ao cangaço.
Até hoje, o nome do tenente Zé Rufino provoca debates.
Tocar tambor já foi crime. Não é força de expressão: era lei escrita, com valor de multa e fiscal designado.
Na Carolina do Sul, o Slave Code de 1740 multava em dez libras qualquer senhor ou feitor que permitisse aos escravizados tocar tambores, soprar chifres ou usar quaisquer outros instrumentos ruidosos.
Repare no mecanismo: a lei não punia só quem tocava. Punia quem deixava tocar.
E não parava na multa. Em Barbados, uma lei de 1699 obrigava cada senhor a revistar as senzalas toda semana e queimar os instrumentos que encontrasse. Na Jamaica, a proibição foi escrita três vezes: 1688, 1717 e 1722.
Ninguém escreve uma lei contra barulho. Escreve-se contra uma coisa que funciona, e o tambor funcionava: comunicava, organizava, coordenava à distância. A lei da Carolina do Sul foi escrita um ano depois de uma revolta ter marchado com dois tambores na frente. O preâmbulo diz isso com todas as letras.
Quando a proibição não bastou, vieram os adjetivos.
Primitivo era o argumento estético. Demoníaco, o religioso. Barulho, o cotidiano. Os três serviam à mesma função.
Em 1893 um austríaco publicou um livro chamado Música Primitiva e descreveu o canto do Congo como um uivo monótono. O que o sistema europeu não sabia descrever foi tratado como ausência de complexidade, e não como complexidade de outro tipo.
E no Brasil isso não é história antiga.
Mais de 500 peças foram recolhidas em terreiros do Rio entre 1889 e 1945, três atabaques entre elas. Só saíram da guarda da Polícia Civil em agosto de 2020, depois de três anos de negociação puxada pelo movimento Liberte Nosso Sagrado. Cinco anos atrás.
A lei caiu em algum momento. A frase que ela justificava, não.
Ela só trocou de alvo. Este é o sétimo e último episódio da série, e nos seis anteriores disseram exatamente a mesma coisa do sintetizador, da caixa de ritmos, do Auto-Tune, do sampling, do streaming e agora da IA. Não é música de verdade. Não tem alma. Vai acabar com tudo.
Sempre com as mesmas palavras. O tambor só foi o primeiro da fila.
Nenhuma dessas brigas foi decidida por quem reclamou. Foi decidida por quem continuou tocando.
Se você quer começar a tocar, comente AULA e eu te mando uma aula de djembe.
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