quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Tocar tambor já foi crime. Não é força de expressão: era lei escrita, com valor de multa e fiscal designado.

Na Carolina do Sul, o Slave Code de 1740 multava em dez libras qualquer senhor ou feitor que permitisse aos escravizados tocar tambores, soprar chifres ou usar quaisquer outros instrumentos ruidosos. Repare no mecanismo: a lei não punia só quem tocava. Punia quem deixava tocar. E não parava na multa. Em Barbados, uma lei de 1699 obrigava cada senhor a revistar as senzalas toda semana e queimar os instrumentos que encontrasse. Na Jamaica, a proibição foi escrita três vezes: 1688, 1717 e 1722. Ninguém escreve uma lei contra barulho. Escreve-se contra uma coisa que funciona, e o tambor funcionava: comunicava, organizava, coordenava à distância. A lei da Carolina do Sul foi escrita um ano depois de uma revolta ter marchado com dois tambores na frente. O preâmbulo diz isso com todas as letras. Quando a proibição não bastou, vieram os adjetivos. Primitivo era o argumento estético. Demoníaco, o religioso. Barulho, o cotidiano. Os três serviam à mesma função. Em 1893 um austríaco publicou um livro chamado Música Primitiva e descreveu o canto do Congo como um uivo monótono. O que o sistema europeu não sabia descrever foi tratado como ausência de complexidade, e não como complexidade de outro tipo. E no Brasil isso não é história antiga. Mais de 500 peças foram recolhidas em terreiros do Rio entre 1889 e 1945, três atabaques entre elas. Só saíram da guarda da Polícia Civil em agosto de 2020, depois de três anos de negociação puxada pelo movimento Liberte Nosso Sagrado. Cinco anos atrás. A lei caiu em algum momento. A frase que ela justificava, não. Ela só trocou de alvo. Este é o sétimo e último episódio da série, e nos seis anteriores disseram exatamente a mesma coisa do sintetizador, da caixa de ritmos, do Auto-Tune, do sampling, do streaming e agora da IA. Não é música de verdade. Não tem alma. Vai acabar com tudo. Sempre com as mesmas palavras. O tambor só foi o primeiro da fila. Nenhuma dessas brigas foi decidida por quem reclamou. Foi decidida por quem continuou tocando. Se você quer começar a tocar, comente AULA e eu te mando uma aula de djembe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário