sexta-feira, 30 de junho de 2017

Sobreviventes do Massacre do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, em 1937.

Uma comunidade religiosa, liderada por um “beato” é brutalmente massacrada. Estamos falando de Canudos? Não, trata-se de Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, localizada no município de Crato, no sertão do Cariri Cearense.
A comunidade – que chegou a ter mais de duas mil pessoas – era liderada pelo beato José Lourenço, descendente de negros alforriados e discípulo de Padre Cícero, que ousou desafiar o poder dos latifundiários. Ele propôs um sistema de trabalho coletivo e divisão dos lucros para a compra de remédios e querosene, que alimentava as lamparinas em um tempo em que ainda não havia luz elétrica. Além disso, acolhia os flagelados da seca de 1932, que assolou o Nordeste.
Isso, claro, incomodou os coronéis da região, que exigiram providências do governo Getúlio Vargas. Havia o medo que o beato José Lourenço se transformasse em um novo Antônio Conselheiro. Os jornais, então, iniciaram uma série de denúncias contra a comunidade, acusando-os de profanos e fanáticos. Em 1936, o Caldeirão foi invadido pelas tropas do tenente José Góis de Campos Barros que, com muita violência e excesso, expulsaram todos os moradores, saquearam e destruíram o sítio. José Lourenço conseguiu fugir, se refugiando na Serra do Araripe com outros camponeses.
Severino Tavares, membro da comunidade, foi preso, mas jurou vingança. Dito e feito: quando saiu da prisão, juntou alguns ex-moradores do Caldeirão e atacou as tropas comandadas pelo capitão José Bezerra. Isso foi o estopim para o conflito. Em 1937, tropas de todo o estado foram enviadas para a serra do Araripe e até aviões foram usados para bombardear a Serra. O número de mortos é estimado entre 700 a 1000 camponeses.
José Lourenço conseguiu escapar do bombardeio e, após muitas negociações, voltou para o Caldeirão. Mas não ficou muito tempo, os padres salesianos o expulsaram e ele foi morar em Exu, Pernambuco, onde faleceu em 1946, vítima da peste bubônica.
A ONG cearense SOS Direitos Humanos, em 2008, pediu na justiça a procura, identificação, enterro digno e indenização dos descendentes dos mortos no Caldeirão. O pedido foi arquivado e ainda não há um documento oficial que registre o massacre. O exército nega o massacre.


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