terça-feira, 25 de agosto de 2026

Antônio Conselheiro

O Brasil tem um dom perverso: transformar fé em pólvora. Basta olhar para os rastros deixados pelos movimentos messiânicos que pipocaram do fim do Império até o Estado Novo. No sertão rachado, onde a fome era lei e o Estado só chegava na forma da repressão, brotavam profetas — homens simples, de batina gasta ou pés descalços — que ousavam prometer um futuro diferente. Foi assim em Canudos, com Antônio Conselheiro, que ergueu uma cidade inteira no coração da Bahia e pagou com o massacre de 1897. Foi assim no Contestado, nas matas do Sul, onde monges e camponeses enfrentaram o Exército e as companhias estrangeiras. Foi assim, também, no Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, no Ceará, onde o beato José Lourenço construiu uma comunidade autossuficiente — até ser esmagada por bombas em 1937. E foi assim, de modo ainda mais cruel e esquecido, em Pau de Colher, sertão baiano, 1938. Ali, um beato chamado José Senhorinho arrastou sertanejos famintos com a promessa de salvação. Não durou. Em poucas horas, a polícia varreu o arraial e centenas de homens, mulheres e crianças foram abatidos. Canudos ganhou as páginas de Euclides da Cunha. O Contestado virou matéria de manual. O Caldeirão, memória incômoda. Mas Pau de Colher? Pau de Colher foi empurrado para o esquecimento, como se nunca tivesse existido. Todos eles, no fundo, são variações do mesmo drama: o povo pobre buscando no sagrado uma saída para a miséria. E o Estado respondendo sempre com chumbo. No sertão, cada cruz erguida já nasce com o peso da tragédia. E, ainda assim, entre pedras, secas e massacres, a esperança insiste em florescer. Texto: Paulo Henrique Lacerda (A História Esquecida)

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