Em nosso manifesto político definimos os negros como aqueles que,
por lei ou tradição, são discriminados política, econômica e socialmente
como um grupo na sociedade sul-africana e que se identificam como uma
unidade na luta pela realização de suas aspirações. Tal definição
manifesta para nós alguns pontos:
1- Ser negro não é uma questão de pigmentação, mas o reflexo de uma atitude mental;
2- Pela mera descrição de si mesmo como negro, já se começa a trilhar o
caminho rumo à emancipação, já se esta comprometido com a luta contra
todas as forças que procuram usar a negritude como um rótulo que
determina subserviência.
A partir dessas observações, portanto,
vemos que a expressão negro não é necessariamente abrangente, ou seja, o
fato de sermos todos não brancos não significa necessariamente que
todos somos negros. Existem pessoas não brancas e continuarão a existir
ainda por muito tempo. Se alguém aspira ser branco, mas sua pigmentação o
impede, então esse alguém é um não branco. [...] qualquer um que sirva
na força policial ou nas Forças de Segurança é, isso facto, um não
branco. Os negros – os negros verdadeiros –são os que conseguem manter a
cabeça erguida em desafio, em vez de entregar voluntariamente sua alma
ao branco.
Assim, numa breve definição, a Consciência Negra é, em
essência, a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças
com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua
pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que
os prendem em uma servidão perpétua. Procura provar que é mentira
considerar o negro uma aberração do “normal”, que é ser branco.
É
a manifestação de uma nova percepção de que, ao procurar fugir de si
mesmos e imitar o branco, os negros estão insultando a inteligência de
quem os criou negros. Portanto, a Consciência Negra toma conhecimento de
que o plano de Deus deliberadamente criou o negro, negro. Procura
infundir na comunidade negra um novo orgulho de si mesma, de seus
esforços, seus sistemas de valores, sua cultura, religião e maneira de
ver a vida.
A inter-relação entre a consciência do ser e o
programa de emancipação é de importância primordial. Os negros não mais
procuram reformar o sistema, porque isso implica aceitar os pontos
principais sobre os quais o sistema foi construído. Os negros se acham
mobilizados para transformar o sistema inteiro e fazer dele o que
quiserem.
Um empreendimento dessa importância só pode ser
realizado numa atmosfera em que as pessoas estejam convencidas da
verdade inerente à sua condição. Portanto, a libertação tem importância
básica no conceito de Consciência Negra, pois não podemos ter
consciência do que somos e ao mesmo tempo permanecermos em cativeiro.
Queremos atingir o ser almejado, um ser livre.
O movimento em
direção à Consciência Negra é um fenômeno que vem se manifestando em
todo o chamado Terceiro Mundo. Não há dúvidas de que a discriminação
contra o negro em todo o planeta tem origem na atitude de exploração,
por parte do homem branco. Através da História, a colonização de países
brancos pelos brancos resultou, na pior das hipóteses, numa simples
fusão cultural ou geográfica, ou, na melhor, no abastardamento da
linguagem.
É verdade que a história das nações mais fracas é
moldada pelas nações maiores, mas em nenhum lugar do mundo atual vemos
brancos explorando brancos numa escala ainda que remotamente semelhante
ao que ocorre na África do Sul. Por isso somos forçados a concluir que a
exploração dos negros não é uma coincidência. Foi um plano deliberado
que culminou no fato de até mesmo os chamados países independentes
negros não terem atingido uma independência real.
Com esse
contexto em mente, temos de acreditar então que essa é uma questão de
possuir ou não possuir, em que os brancos foram deliberadamente
determinados como os que possuem, e os negros os que não possuem. Entre
os brancos na África do Sul, por exemplo, não existe nenhum trabalhador
no sentido clássico, pois até mesmo o trabalhador branco mais oprimido
tem muito a perder se o sistema for mudado. No trabalho, várias leis o
protegem de uma competição por parte da maioria. Ele tem o direito de
voto e o utiliza para eleger o governo nacionalista, uma vez que os
considera os únicos que, por meio das leis de reserva de empregos, se
esforçam em cuidar de seus interesses contra uma competição por parte
dos “nativos”.
Devemos então aceitar que uma análise de nossa
situação em termos da cor das pessoas desde logo leva em conta o
determinante único da ação política – isto é, a cor – ao mesmo tempo que
descreve, com justiça, os negros como os únicos trabalhadores reais na
África do Sul. Essa análise elimina de imediato todas as sugestões de
que algum dia pode haver um relacionamento efetivo entre os verdadeiros
trabalhadores, ou seja, os negros, e os trabalhadores brancos
privilegiados, já que mostramos que estes últimos são os maiores
sustentáculos do sistema. Na verdade o governo permitiu que se
desenvolvesse entre os brancos uma atitude anti-negro tão perigosa que
ser negro é considerado quase um pecado, e por isso os brancos pobres –
que economicamente são os que estão mais próximos dos negros – assumiram
uma postura extremamente reacionária em relação a eles, demonstrando a
distância existente entre os dois grupos. Assim, o sentimento antinegro
mais forte se encontra entre os brancos muito pobres, a quem a teoria de
classes convoca para se unirem aos negros na luta pela emancipação. É
esse tipo de lógica tortuosa que a abordagem da Consciência Negra
procura erradicar.
Para a abordagem da Consciência Negra,
reconhecemos a existência de uma força principal [...] Trata-se do
racismo branco. Essa é a única força contra a qual todos nós temos de
lutar. Ela opera com uma abrangência enervante, manifestando-se tanto na
ofensiva quanto em nossa defesa. Até hoje seu maior aliado vem sendo
nossa recusa em nos reunirmos em grupo, como negros, pois nos disseram
que essa atitude é racista. Desse modo, enquanto nos perdemos cada vez
mais num mundo incolor, com uma amorfa humanidade comum, os brancos
encontram prazer e segurança em fortalecer o racismo branco e explorar
ainda mais a mente e o corpo da massa de negros que não suspeitam de
nada. Os seus agentes se encontram sempre entre nós, dizendo que é
imoral nos fecharmos num casulo, que a resposta para nosso problema é o
diálogo e que a existência do racismo branco em alguns setores é uma
infelicidade, mas precisamos compreender que as coisas estão mudando. Na
realidade esses são os piores racistas, porque se recusam a admitir
nossa capacidade de saber o que queremos. Suas intenções são óbvias:
desejam fazer o papel do barômetro pelo qual o resto da sociedade branca
pode medir os sentimentos do mundo negro. Esse é o aspecto que nos faz
acreditar na abrangência do poder branco, porque ele não só nos provoca,
como também controla nossa resposta a essa provocação. Devemos prestar
muita atenção neste ponto, pois muitas vezes passa despercebido para os
que acreditam na existência de uns poucos brancos bons. Certamente há
uns poucos brancos bons, do mesmo modo que há uns poucos negros maus.
Mas o que nos interessa no momento são atitudes grupais e a política
grupal. A exceção não faz com que a regra seja mentirosa – apenas a
confirma.
Portanto, a análise global, baseada na teoria hegeliana
do materialismo dialético, é a seguinte: uma vez que a tese é um
racismo branco, só pode haver uma antítese válida, isto é, uma sólida
unidade negra para contrabalançar a situação.
Se a África do Sul
deve se tornar um país em que brancos e negros vivam juntos em harmonia,
sem medo da exploração por parte de um desses grupos, esse equilíbrio
só acontecerá quando os dois opositores conseguirem interagir e produzir
uma síntese viável de ideias e um modus vivendi. Nunca podemos
empreender nenhuma luta sem oferecer uma contrapartida forte às raças
brancas que permeiam nossa sociedade de modo tão efetivo.
Precisamos eliminar de imediato a ideia de que a Consciência Negra é
apenas uma metodologia ou um meio para se conseguir um fim. O que a
consciência Negra procura fazer é produzir, como resultado final do
processo, pessoas negras de verdade que não se considerem meros
apêndices da sociedade branca. Essa verdade não pode ser revogada. Não
precisamos pedir desculpas por isso, porque é verdade que os sistemas
brancos vêm produzindo em todo mundo grande número de indivíduos sem
consciência de que também são gente. Nossa fidelidade aos valores que
estabelecemos para nós mesmo também não pode ser revogada, pois sempre
será mentira aceitar que os valores brancos são necessariamente os
melhores. Chegar a uma síntese só é possível com a participação na
política de poder. Num dado momento, alguém terá que aceitar a verdade, e
aqui acreditamos que nós é que temos a verdade.
No caso de os
negros adotarem a Consciência Negra, o assunto que preocupa
principalmente os iniciados é o futuro da África do Sul. O que faremos
quando atingirmos nossa consciência? Será que nos propomos a chutar os
brancos para fora do país? Eu pessoalmente acredito que deveríamos
procurar as respostas a essas perguntas no Manifesto Político da SASO e
em nossa análise da situação da África do Sul. Já definimos o que para
nós significa uma integração real, e a própria existência de tal
definição é um exemplo de nosso ponto de vista. De qualquer modo, nos
preocupamos mais com o que acontece agora que com o que acontecerá no
futuro. O futuro sempre será resultado dos acontecimentos presentes.
Não se pode subestimar a importância da solidariedade dos negros com
relação aos vários segmentos da comunidade negra. No passado houve
muitas insinuações de que uma unidade entre negros não era viável porque
eles se desprezam um ao outro. Os mestiços desprezam os africanos
porque, pela proximidade com esses últimos, podem perder a oportunidade
de serem assimilados pelo mundo branco. Os africanos desprezam os
mestiços e os indianos por várias razões. Os indianos não só desprezam
os africanos mas, em muitos caso, também os exploram em situações de
trabalho e de comércio. Todos esses estereótipos provocam uma enorme
desconfiança entre os grupos negros.
O que se deve ter sempre em mente é que:
1. Somos todos oprimidos pelo mesmo sistema;
2. Ser oprimidos em graus diferentes faz parte de um propósito
deliberado para nos dividir não apenas socialmente, mas também com
relação às nossas aspirações;
3. Pelo motivo citado acima, é preciso
que haja uma desconfiança em relação aos planos do inimigo e, se
estamos igualmente comprometidos com o problema da emancipação, faz
parte de nossa obrigação chamar a atenção dos negros para esse propósito
deliberado;
4. Devemos continuar com nosso programa, chamando para
ele somente as pessoas comprometidas e não as que se preocupam apenas em
garantir uma distribuição eqüitativa dos grupos em nossas fileiras.
Esse é um jogo comum entre os liberais. O único critério que deve governar toda nossa ação é o compromisso.
Outras preocupações da Consciência Negra dizem respeito às falsas
imagens que temos de nós quanto aos aspectos culturais, educacionais,
religiosos e econômicos. Não devemos subestimar essa questão. Sempre
existe uma interação entre a história de um
povo, ou seja, seu
passado, e a fé em si mesmo e a esperança em seu futuro. Temos
consciência do terrível papel desempenhado por nossa educação e nossa
religião, que criaram entre nós uma falsa compreensão de nós mesmos. Por
isso precisamos desenvolver esquemas não apenas para corrigir essa
falha, como também para sermos nossas próprias autoridades, em vez de
esperar que os outros nos interpretem. Os brancos só podem nos enxergar a
partir de fora e, por isso, nunca conseguirão extrair e analisar o etos
da comunidade negra. Assim, e para resumir, peço a esta assembleia que
procure o Manifesto Político da SASO, que apresenta os pontos principais
da Consciência Negra. Quero enfatizar novamente que temos de saber com
muita nitidez o que queremos dizer com certas expressões e qual o nosso
entendimento quando falamos de Consciência Negra.
Fontes:
“A Definição da Consciência Negra", escrito por Bantu Steve Biko, em dezembro de 1971.
Núcleo de Estudantes Negras “Ubuntu” / Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Via: Denilson Oluwafemi
GELEDÉS<http://www.geledes.org.br/definicao-da-consciencia-negra/…>
Imagem <http://www.radiovillafrancia.cl/…/…/biko1-e1410554055291.png>

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